Introdução | Natural Language Institute

Reavivando o Kariri

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Introdução

By Ricky - 09/aug/2019 #História, Cultura e Artes

Eu sempre disse que se eu pudesse viver mais de uma vida, eu seria linguista. Pelo jeito, não precisei esperar pela próxima vida, pois, desde 2014, uma certa obsessão tomou conta de mim e resolvi começar a decodificar uma língua indígena morta. Trata-se da língua Kariri (também chamada de Kiriri) dos índios Kariris. Eu morei no Cariri cearense, uma região mais ao sul de Ceará que faz fronteira com Pernambuco. De 2013 a 2016, eu trabalhei para a Secretaria de Cultura da cidade do Crato e dirigia o museu histórico de lá.  Um dia, lendo sobre a região do Cariri, descobri que existia um livro de gramática na língua Kariri, escrito por um padre jesuíta há mais de 300 anos. Eu já sabia que o nome Kariri representava uma tribo indígena que já não existe mais, mas nunca me ocorreu que poderia haver registro da língua dos Kariris. Para mim, todas as línguas indígenas do Nordeste estavam extintas. Desde esta descoberta, venho digitalizando e decodificando a língua, na esperança de que meu trabalho contribua para o seu renascimento.

Sempre achei extremamente triste que um povo pudesse perder sua língua e, por isso, sempre tive um fascínio por línguas raras ou ameaçadas.  Quando adolescente, eu me lembro de meus pais falando da proibição da língua Catalã, na Espanha, quando o ditador espanhol, General Franco, morreu. Achei injusto e bizarro que alguém pudesse proibir outra pessoa de falar sua língua. Nos anos 80, fui estudar em Nova York e aluguei uma casa no Brooklyn com quatro irlandeses. Uma dessas pessoas era filha de pais falantes de irlandês, o próprio gaélico, como primeira língua, uma língua ameaçada e falada por apenas 1% da população da Irlanda. Eu sabia da raridade desta língua, mas nunca esperei conhecer alguém que a falasse - muito menos morar com um falante nativo. Ela tinha um nome realmente exótico, porém tipicamente gaélico. Íde Ní Shúilleábháin era o nome dela e se pronuncia Ida Ni Ru-lou-an. O “h” torna a letra anterior muda. O “Ní” no meio do nome, ela explicou, significa “filha de” (ela era Íde, filha de Súilleábháin sem o “h” depois do “S”). Por isso, se pronuncia o “S” no nome dos homens da família: Sulouan. Portanto, o pai e os irmãos eram Súilleábháin.  O sobrenome da mãe era Úi Shúilleábháin - “esposa de Súilleábháin”; ou seja, os homens da família carregam o nome da família. As mulheres são “esposa de” ou “filha de”; sexista, porém fascinante. Ela me ensinou coisas como Richard é o meu nome - "Risteard is ainm dom"; como vai? - “Conas atá tú?”; bem, obrigado - “go maith”, e; durma bem - “codladh sámh”.

Ela tinha discos da banda Clannad que cantavam em gaélico. Me dava muita tristeza saber que poucas pessoas entendiam as letras. Escutem a música “Tá Mé ‘Mo Shui” no YouTube para ouvir a beleza desta língua:

Na minha vida, criei um afeto por línguas ameaçadas bem cedo. Foi por causa desse afeto que fiquei animado ao saber da existência de uma gramática da língua Kariri - uma língua de uma região onde eu estava morando e pela qual eu tinha muito carinho. Era nítido que eu estava morando num lugar cuja influência indígena tinha sido grande... Você via na cara das pessoas, nos próprios traços.

Logo que fiquei sabendo da existência da gramática da língua Kariri, fiz buscas no Google. Me deparei com um pequeno dicionário de 800 palavras escrito pelo já falecido professor da UnB, Aryon Dall´Igna Rodrigues, e um catecismo, o único livro escrito em Kariri - O Catecismo da Doutrina Christã na Língua Brasílica da Nação Kiriri escrito pelo jesuíta italiano Luiz Vincencio Mamiani em 1698.

O Catecismo é um pequeno livro de 250 páginas, que apresenta o texto em duas colunas. Uma delas está em português e a outra em kariri. Trata-se de um diálogo entre um padre (mestre ou M) e um índio (discípulo ou D).

Por meio de um processo de eliminação, tenho decodificado e traduzido o Catecismo, palavra por palavra. Não apenas para descobrir novas palavras, mas para entender a sintaxe das sentenças, refletindo como estruturavam seus pensamentos.

Uma das primeiras coisas que me chamou atenção nesta língua foi a palavra para ‘alma’ (“anhi”) que era a mesma palavra para “sombra”. A palavra para “anjo” deve ter sido uma criação do padre Jesuíta Mamiani. A palavra “anjo” é a combinação das palavras “alma” + “perfeito”; “alma perfeita” (“anhiwonhé”). Mas o que mais me fascinou foi a palavra para saber: “use”. É a mesma para “ser feliz”; saber é ser feliz; ser feliz é saber; foi aí que me apaixonei pela língua Kariri!

Comecei a indagar para mim mesmo se era possível reavivar esta língua. Será que havia palavras suficientes para reavivar e falar Kariri? Comecei a contar quantas palavras existiam na Gramática e no Catecismo - os únicos registros da língua. As minhas estimativas contabilizaram mais ou menos 2000 palavras. Pois é… não é muito. Por isso, comparo a língua Kariri a um carro com um excelente motor, mas que tem apenas uma roda. A gramática, que está totalmente intacta, seria o motor. O padre jesuíta que descreveu a gramática, descreveu tudo, desde os tempos verbais, as declinações, os pronomes, as descrições detalhadas de pronúncia, até "partículas que dão elegância” a certas frases. O problema é a quantidade de palavras que restaram da língua. Como só existe um livro escrito em Kariri (o Catecismo), só é possível falar de Cristo, Deus, pecado, o inferno, o paraíso, pecado, matrimônio, batismo, proibições, missa, pecado e mais pecado. Não há palavras suficientes para falar sobre muita coisa, só religião. Será necessário criar novas palavras; meu lado artista gosta MUITO desta ideia. Criação é comigo mesmo. 

Comecei a me imaginar como o Eliezer Ben Yehuda da língua kariri. Eliezer Ben Yehuda foi a pessoa que reavivou a língua hebraica que estava morta, assim como o latim estava completamente morto; só era usado liturgicamente. Até a criação de Israel, os judeus ouviam o hebraico nas sinagogas, mas não falavam a língua entre si. Foi necessário criar muitas palavras novas para que ela pudesse passar de língua não falada para uma que hoje tem 4 milhões de falantes nativos.

Desde a minha volta do Cariri para Brasília, em 2017, eu cheguei a publicar um artigo na Revista de Antropologia Linguística, e, no mesmo ano,  comecei a dar aulas de inglês aqui, no Natural Language Institute. Falei para o fundador da escola, Victor Hart, sobre o meu projeto e que eu achava que a tecnologia poderia ajudar a reavivar esta língua. Ele quis me ajudar e sugeriu que a equipe de T.I. da escola (Natural Labs), pudesse me ajudar na criação de um novo e atualizado dicionário da língua Kariri.  Ao decodificar a língua, eu tenho descoberto palavras novas como, “becubecu” para “hóstia”, e “crucuté” para “cálice”, e estas palavras entrarão no dicionário que esperamos lançar em breve.

Muitas pessoas me perguntam: por que decodificar uma língua morta?
Difícil falar dessa minha obsessão em poucas palavras, mas só acho que na região do Cariri alguma coisa da língua poderia ser ensinada nas escolas; não necessariamente para falar ou ganhar fluência. Brasileiros em geral sabem pouco sobre sua ascendência indígena. Eu já ouvi muita gente falar coisas, como: “minha bisavó foi índia pega no laço”, ou “índia pega no dente”, e, mais nada além disso.. Acho que seria interessante se crianças pudessem aprender que esses parentes vieram de uma cultura, que tinham um nome e que falavam uma língua complexa com palavras lindas como “use” (saber), que também significa “ser feliz”. 

Curiosamente, em junho deste ano, encontrei no YouTube índios de Alagoas, os Kariri-xocós, que estão estudando os mesmos livros que eu, e resgatando a língua Kariri, mostrando-a para crianças em sala de aula. Entrei em contato com eles, falei de meu trabalho de decodificação e produção de um dicionário, e agora estamos conversando via WhatsApp, trocando letras de músicas em Kariri, vídeos, palavras novas e conjugações. Em breve, poderei compartilhar o novo dicionário da língua Kariri com os Kariri-xocó. Não é que o Kariri está voltando? Feliz em saber!

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