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Escrita: a habilidade que não pode ser ignorada

By Victor - 15/may/2021 #Línguas e Educação

Conforme sua fluência melhora, você pode se tornar hábil na conversação em seu idioma alvo e até imaginar, prematuramente, que você está próximo à perfeição.

Afinal, você conversa com nativos que parecem entender bem o que você fala e que raramente — ou nunca — fazem correções. Muito provavelmente, você está escolhendo todas as palavras certas, conjugando os verbos perfeitamente e empregando a gramática em geral de forma impecável, não é?

Na realidade, pode ser que seus sorrisos amigáveis, gestos e pistas contextuais estejam permitindo que os nativos entendam o sentido de suas falas ou, de qualquer forma, passem por cima de seus erros semânticos e gramaticais.

Ao escrever, essa comunicação não-verbal não estará disponível, e suas habilidades linguísticas estarão à prova. Isso é bom: por meio da escrita, você melhorará muito sua capacidade de perceber seus próprios erros, receber correções, evitar empacar em um nível e melhorar de fato seu domínio do idioma.

Essa é apenas uma das razões pelas quais a escrita é importante.

Na verdade, a escrita é tão essencial para a aquisição de línguas estrangeiras que existe uma revista acadêmica inteiramente dedicada ao assunto. É impressionante constatar que essa revista, a Journal of Second Language Writing, foi avaliada como tendo o segundo maior impacto dentre 182 revistas acadêmicas sobre linguística![1] (Você pode acessar uma edição gratuita aqui.)

Neste post, entretanto, não vou me aprofundar em teorias acadêmicas sobre a escrita; em vez disso, vou começar a lhe fornecer motivação prática e orientação sobre a escrita como um componente essencial do domínio de línguas estrangeiras, com base em meus anos de experiência como estudante de idiomas, professor, coordenador e, finalmente, inovador em educação.

 

A escrita talvez seja a habilidade linguística mais importante para o sucesso

Em primeiro lugar, devemos considerar a importância intrínseca da escrita enquanto habilidade linguística. De um ponto de vista acadêmico e professional, ela pode ser considerada a mais importante das quatro habilidades linguísticas.

Nas escolas e universidades, embora a leitura e escuta sejam fundamentais para absorver o conteúdo, em última instância os alunos são avaliados de acordo com aquilo que conseguem produzir, o que quase sempre envolve a escrita. Ou seja, se você fizer qualquer tipo de trabalho acadêmico em uma língua estrangeira, sua capacidade de escrever bem naquele idioma será imprescindível para seu sucesso.

Da mesma forma, a escrita é sem dúvida uma habilidade fundamental para obter um bom desempenho na maioria dos empregos.

Quando eu trabalhava na secretaria de relações internacionais do Tribunal de Contas da União, conseguir ler, entender e falar espanhol e outros idiomas era importante; mas a capacidade de redigir ofícios, escrever e-mails e preparar relatórios foi o que realmente se constituiu em diferencial.

Um estudo recente da Carleton University mostrou que as pessoas gastam um terço de seu tempo no trabalho com e-mails, ressaltando um dos vários contextos em que a escrita é parte integrante da maioria das carreiras.

Vale observar, ainda, que a escrita se tornou mais importante do que nunca na vida social de muitas pessoas.

Antigamente, novas amizades ou paqueras surgiam quase sempre presencialmente, mas cada vez mais acontecem primeiro no mundo virtual. Quase todas essas interações online começam por escrito, antes de evoluírem para chamadas de voz e vídeo e finalmente encontros presenciais (se as pandemias os permitirem).

Resumindo, se você tiver interesse em fazer amizades ou mesmo em namorar com estrangeiros, vale aperfeiçoar sua escrita para garantir aquela importantíssima boa primeira impressão.[2]

 

A escrita é um componente imprescindível da aquisição linguística

Como professor de inglês, considero a escrita tão essencial no processo de aquisição linguística que exijo um compromisso dos meus alunos de escrever uma redação a cada aula, antes de iniciarmos um curso.

O ponto chave é que o processo de escrita fornece o elo ideal entre a competência receptiva em um idioma (a compreensão) e a competência produtiva (a comunicação ativa).

A escrita pode ser vista como a fala em câmera lenta. Permite que você, conscientemente, transforme o seu conhecimento passivo — obtido por meio da leitura e escuta — num repertório de produção ativa.

A leitura é a melhor maneira de adquirir vocabulário e uma compreensão gramatical intuitiva no idioma. A escuta reforça esse processo de aquisição e garante que você está pronunciando mentalmente a linguagem de forma adequada. Porém, começar a empregar esse conhecimento na própria fala é um processo complicado e árduo. Não se trata, de forma alguma, de uma transição automática.

Na realidade, pessoas que tiveram exposição extensa a um idioma, mas não tiveram a oportunidade ou não fizeram o esforço persistente de se expressar nele, frequentemente alcançam um nível de compreensão perfeita, mas são totalmente incapazes de falar.

A escrita preencha essa lacuna maravilhosamente bem.

Quando você escreve, transforma o estoque de conhecimentos em seu cérebro, adquirido por meio da leitura e da escuta, e o organiza em novos caminhos neurais que então dão lugar a sua própria produção linguística. Uma porção de seu vocabulário passivo de repente se torna ativo. Sua compreensão gramatical receptiva se converte na capacidade de construir frases originais na língua estrangeira.

Depois de passar por esse processo envolvido no ato de escrever, falar é o próximo passo natural, que fluirá mais facilmente.

Tendo deliberadamente convertido o conhecimento passivo em competência produtiva, você certamente conseguirá dar o próximo passo e utilizá-lo em conversação espontânea. Essa conversão ocorre não apenas nos estágios iniciais da aquisição linguística, mas repetidamente, em cada nível de proficiência.

Outro benefício da escrita é que ela fornece um "registro duradouro" de seu domínio de um idioma estrangeiro enquanto veículo para seus pensamentos.

Eu amo revisitar minhas redações universitárias em espanhol e francês para lembrar o que eu pensava e que capacidade tinha de me expressar nesses idiomas naquela época. De acordo com um artigo de 2012 da revista acadêmica que mencionei na introdução, esse "registro duradouro" também pode "estimular processos cognitivos e movimentos interativos considerados promotores da aquisição linguística".[3]

 

Nos próximos posts, detalharei os pontos chave para melhorar sua escrita e, com isso, o domínio de seu idioma alvo.

Também lhe darei uma oportunidade única de obter uma correção gratuita de uma redação e depois utilizar um jogo inovador para revisar e assimilar essas correções. Então, comece hoje a planejar sua redação, que poderá ser em qualquer idioma que você deseja aperfeiçoar – inglês, português, espanhol ou francês — e deve conter de 1.000 a 2.500 caracteres. Fique atento para mais detalhes.

 

[1] Journal Citation Reports (JCR) classifica o impacto dos periódicos com base na frequência com que os seus artigos são citados em outros periódicos. A segunda maior classificação na categoria linguística, atribuída ao Journal of Second Language Writing, pode ser encontrada em: "Journals Ranked by Impact: Linguistics". 2016 Journal Citation Reports. Web of Science (Social Sciences ed.). Thomson Reuters. 2017.

[2] É curioso notar, também, que o envio de mensagens e e-mails fizeram com que a escrita tomasse uma proporção maior das formas de comunicações com pessoas que já conhecemos. No Brasil, por exemplo, muitas pessoas consideram que é rude telefonar para alguém sem antes enviar mensagens. Uma gigantesca parte da interação social acontece no WhatsApp. E nem se dê ao trabalho de deixar uma mensagem de correio de voz nos dias de hoje...

[3] https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1060374312000793


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