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Como dominar um idioma para a vida inteira

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Falar dá vida aos idiomas

By Victor - 02/jul/2021 #Línguas e Educação

Quando você se imagina dominando uma língua estrangeira, quais imagens mentais surgem? Que tipo de situação lhe daria a maior motivação?

Para muitas pessoas, falar com fluência e facilidade — ter conversas espontâneas e agradáveis com falantes nativos — é o ápice do domínio de um idioma. Em geral, quando dizemos que alguém aprendeu uma língua e se tornou fluente, estamos nos referindo principalmente a sua capacidade de falar.

O fascínio especial de ser capaz de conversar tranquilamente com falantes de uma língua estrangeira reflete o fato de que a linguagem é um fenômeno inerentemente social.

As línguas permitiram que as sociedades humanas surgissem e prosperassem.

As crianças aprendem sua língua materna por meio da interação social, inicialmente dentro da família; e as pessoas que aprendem línguas estrangeiras com mais rapidez costumam ser aquelas que buscam muita interação social.

 

Um pouco de teoria sobre a aquisição de linguagem

Uma das três teorias mais difundidas sobre como as pessoas adquirem idiomas é a Teoria Sócio-interacionista[1], inicialmente desenvolvida pelo psicológico soviético Lev Vygotsky e disseminada no Ocidente pelo americano Jerome Bruner, também psicológico, renomado pelas contribuições à teoria de aprendizagem cognitiva na psicologia educacional[2].

Nesse paradigma, a proficiência linguística das crianças se desenvolve em conjunto com a construção cognitiva de um mundo social.

Subjacente ao processo de aquisição de conteúdo semântico e competência linguística está, fundamentalmente, a “intenção comunicativa”. Em outras palavras, mesmo na primeira infância, é nosso desejo de nos comunicarmos socialmente que motiva a aquisição linguística. Na aquisição do idioma materno, o ingrediente mais importante é a interação entre pais e filhos – estes buscando experiências linguísticas e aqueles mediando o processo de aprendizagem ao fornecer conteúdo modificado e correções.

Na teoria de aquisição de línguas adicionais, a Hipótese Interacionista[3] sustenta, de forma análoga, que a interação direta e a comunicação são chaves para o desenvolvimento da proficiência linguística. A conversação, na qual a comunicação autêntica é necessária e os interlocutores devem negociar significados, fornece o input compreensível ideal para o estudante de idiomas. 

 

A conclusão: como impulsionar seu aprendizado por meio da fala

Existem outras abordagens teóricas, mas a Teoria Sócio-interacionista e a Hipótese Interacionista ajudam a esclarecer uma verdade fundamental na aquisição de idiomas: a conversação em língua estrangeira é cognitivamente estimulante, extremamente motivadora e fornece oportunidades de aprendizado constantes e ideais.

Ler, escrever e ouvir passivamente são componentes inestimáveis da sua jornada de aquisição linguística, mas é falar que dá vida aos idiomas.

Obteremos benefícios práticos ao considerar como a discussão teórica precedente lança luz sobre três dúvidas comuns dos estudantes de línguas estrangeiras e dos desenvolvedores de métodos de ensino:

 

  • Os estudantes devem ser estimulados a falar desde o início ou é melhor deixar a conversação para depois que tenham adquirido compreensão, vocabulário e domínio gramatical suficientes?

Muitos métodos defendem que estudantes aprendam passivamente durante alguns semestre antes de chegar à conversação. “Primeiro, aprenda a gramática e o vocabulário. Quando chegar ao nível avançado, poderá fazer aulas de conversação” — esse é o raciocínio típico.

A Teoria Sócio-interacionista e a Hipótese Interacionista apontam claramente em sentido contrário. Se os estudantes não tiverem a oportunidade e o desafio de conversar nos primeiros semestres, na melhor das hipóteses seu progresso será lento, devido à falta de motivação e estímulo cognitivo. Na pior das hipóteses, ficarão tão entediados e desmotivados que simplesmente desistirão.

Incluir um pouco de conversação nas fases iniciais de aquisição de um idioma traz vida ao processo e deixa os alunos muito mais interessados e focados quando estiverem praticando as outras habilidades linguísticas — escuta, leitura, escrita e mesmo o estudo de vocabulário e gramática.

Os estudantes devem ser autorizados — estimulados, mesmo — a cometerem erros e simplesmente se divertirem na exploração do idioma desde o começo.

 

  • A conversação nas aulas de idiomas deve ser altamente estruturada ou fluida?

Fico angustiado ao ver métodos nos quais o “componente de fala” se resume aos estudantes lerem diálogos e repetirem frases engessadas (talvez mudando um substantivo aqui e um adjetivo acolá).

Não há qualquer interação social! Os estudantes não estão nem um pouco engajados! Portanto, a aquisição efetiva do idioma fica bem limitada.

Cabe sim incluir certa quantidade de conversação estruturada em aulas de idiomas. Particularmente, em níveis mais básicos ou ao introduzir um padrão gramatical, diálogos estruturados podem ser muito úteis, especialmente se recursos lúdicos ajudam o diálogo a ganhar vida.

Porém, normalmente, a conversação fluída é o que traz a interação social para o processo; e isso, conforme já vimos, é crucial para nossa capacidade, enquanto seres humanos, de adquirir a linguagem. Nosso cérebro se mantém motivado, interessado e, portanto, concentrado na conversação espontânea durante as centenas de horas necessárias para dominar um idioma estrangeiro.

Portanto, a conversação agradável e envolvente deve estar no âmago de qualquer programa de aquisição de idiomas.

 

  • É importante aprender com nativos?

Uma vez que a interação social autêntica é elemento essencial na aquisição de idiomas, uma maneira de abordar essa pergunta é fazendo outra: a interação com nativos é importante para o aspecto social da aprendizagem de um idioma?

Com base em minha experiência, responderia com um “sim” enfático. Falar um idioma estrangeiro com alguém do seu próprio país, que fala a mesma língua materna que você, pode ser divertido por certo tempo, mas logo começa a perder a graça e ficar pouco natural. Da mesma forma, conversar com um estrangeiro num idioma que não é o dele não dá uma sensação plenamente satisfatória ou estimulante.

A experiência que realmente emociona e que nunca perde a graça é se comunicar com êxito com nativos em seu próprio idioma.

Irei abordar outros aspectos dessa questão no terceiro post sobre a fala. Por enquanto, basta dizer que a Teoria Sócio-interacionista ajuda a elucidar um motivo pelo qual, empiricamente falando, as aulas de conversação com nativos tendem a ser mais envolventes e, portanto, mais benéficas para a aquisição de um idioma.

 

Então, como consigo conversar mais em meu idioma alvo desde já?

Junte-se a nossos grupos de Meetup para obter acesso gratuito a professores nativos capacitados por meio de eventos de conversação em grupo. Realizados totalmente em seu idioma alvo, com correções de gramática, pronúncia e vocabulário, trata-se de uma ótima maneira de integrar a prática da conversação a sua rotina de aprendizagem do idioma.

Basta inscrever-se em um grupo para receber notificações conforme as aulas são anunciadas (espanhol latino-americano, espanhol europeu,inglês, português brasileiro, português europeu, francês).

[1] Vygotsky, L. S. (1978). Mind in society: The development of higher psychological processes. Cambridge, MA: Harvard University Press.

[2] As outras duas são a teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget e a teoria do processamento de informações de Brian MacWhinney e Elizabeth Bates.

[3] Long, Michael (1985). "Input and Second Language Acquisition Theory". In Gass, Susan; Madden, Carolyn (eds.). Input in second language acquisition. Rowley, Mass: Newbury House. pp. 377–393.


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