Os falantes nativos são melhores professores de idiomas? | Natural Language Institute

Como dominar um idioma para a vida inteira

BLOG

Os falantes nativos são melhores professores de idiomas?

By Victor - 16/aug/2021 #Línguas e Educação

Essa pergunta antiga, debatida tanto por educadores quanto por alunos, depende da ideia de que alguém que conhece um idioma de dentro para fora pode ou não ser a melhor pessoa para ensiná-lo a outros. Vamos examinar com nuance esse debate complexo e tentar responder à pergunta de uma vez por todas.

 

Enquanto pedagogo e estudante de línguas estrangeiras, você sempre prefere e recomenda falantes nativos como professores, se todos os outros fatores forem iguais. Por quê?

Comentei em outra oportunidade por que comunicar com falantes nativos tende a dar uma sensação de uma interação social mais autêntica, que é um elemento essencial para o sucesso na aquisição linguística. Os falantes nativos geralmente tiveram uma rica experiência cultural ao crescer com o idioma que você deseja aprender, o que pode ajudar a motivar e orientar seus próprios estudos, além de fornecer insights valiosos sobre a cultura que está intimamente ligada a seu idioma alvo.

Porém, existe uma vantagem mais fundamental de contar com falantes nativos como professores: o conhecimento implícito que, por definição, possuem do idioma[1].

É claro que, para além do conhecimento temático, os professores de línguas estrangeiras (como qualquer outro tipo de educador) devem, idealmente, possuir um conjunto de características para serem altamente efetivos: devem ser pacientes, empáticos, envolventes, exigentes, atenciosos e habilidosos em fornecer explicações claras e feedback regular.

É, portanto, inquestionável que alguns falantes não nativos, possuindo muitas dessas qualidades em alto grau, podem ser excelentes professores de línguas estrangeiras e, inversamente, alguns falantes nativos, carecendo dessas qualidades, podem não ser professores efetivos em absoluto.

Evidentemente, porém, tais características podem ser igualmente possuídas por nativos e não nativos e, portanto, não são necessariamente relevantes para a escolha entre essas duas categorias de professores de línguas estrangeiras.

Pois bem, se definirmos erroneamente um falante nativo como aquele que nasceu em um determinado país ou possui uma determinada nacionalidade, então seria uma qualificação sem importância para um professor de idiomas. Os falantes nativos devem antes ser definidos precisamente pelo seu domínio comunicativo de um idioma, quase sempre obtido por terem interagido principalmente naquele idioma, com outros falantes nativos, durante uma década ou mais - geralmente quando pré-adolescentes e adolescentes. Desse modo, ser falante nativo de uma língua é normalmente, mas não sempre, o mesmo de ter essa língua como a materna.

Quando o conceito de falante nativo - aquele que se comunica com domínio lexical, gramatical e fonológico espontâneo e intrínseco - é devidamente compreendido, fica claro que ser falante nativo é sinônimo de possuir conhecimento comunicativo ou proficiência em um idioma.

Algumas pessoas ressaltam que professores não nativos muitas vezes têm maior conhecimento gramatical explícito do que falantes nativos e consideram isso uma vantagem importante. Reconheço prontamente que falantes não nativos que aprenderam um idioma por meio de uma abordagem gramatical tendem a ter maior conhecimento explícito de regras gramaticais abstratas e terminologia do que falantes nativos que não receberam o mesmo treinamento. Portanto, se seu objetivo fosse aprender regras gramaticais e terminologia num idioma, você teria razão em buscar um professor que tivesse esse conhecimento, e isso poderia bem ser um falante não nativo[2].

No entanto, como seu objetivo é se comunicar bem em seu idioma alvo, na fala e na escrita, o conhecimento gramatical abstrato é de pouca relevância, e, em vez disso, você deve buscar professores que tenham o maior domínio comunicativo, tanto oral quanto escrito (além das outras qualidades que tornam um professor ser eficaz). Como já salientei, quando bem compreendido, o domínio nativo de um idioma é sinônimo dessa proficiência comunicativa.

É importante observar que, no tocante ao domínio de um idioma, ser falante nativo não é suficiente para a maioria dos casos. Os professores devem dominar também a parte escrita – ser leitores experientes e bons escritores e, desse modo, serem capazes de orientar os estudantes adequadamente no desenvolvimento de suas próprias habilidades de leitura e escrita, inclusive por meio da correção habilidosa de redações                .

Os falantes nativos podem ser competentes em dialetos e registros de linguagem que não sejam o padrão de um país ou suficientemente formais. Por exemplo, aqui no Brasil já conheci camponeses com baixo grau de instrução que, no entanto, são impressionantemente eloquentes e possuem um vocabulário vasto. Contudo, não os recomendaria como professores de português como língua estrangeira porque, embora suas habilidades linguísticas possam ser tão admiráveis e corretas do ponto de vista da linguística quanto aquelas possuídas por pessoas cosmopolitas e altamente instruídas, o registro que sabem empregar não é compatível com os objetivos de estudantes estrangeiros. Quase todos os alunos querem aprender um dialeto padrão e um registro suficiente formal para ser quase universalmente aplicável. Por esse motivo, além da importância já mencionada do domínio da escrita, os professores geralmente devem ser falantes nativos com formação universitária.

 

Tudo bem, falantes nativos, por definição, possuem um domínio comunicativo superior no meu idioma alvo. Mas isso é relevante em termos de sua capacidade de me ensinar?

Vamos primeiro considerar as pesquisas educacionais de forma mais ampla. Pode parecer óbvio que o conhecimento do professor sobre o conteúdo é uma das várias características importantes que contribuem para a qualidade do ensino e resultados dos alunos. Como a maioria das pessoas, eu prefiro ser ensinado por alguém com conhecimento profundo e íntimo de uma matéria. No entanto, essa correlação tem sido objeto de muito debate na literatura educacional. Infelizmente, existem poucos estudos empíricos rigorosos.

Um dos poucos estudos com uma amostra grande o suficiente (9.556 alunos dos anos finais do ensino fundamental e 181 professores de ciências físicas) e uma metodologia rigorosa e bem elaborada para abordar esse assunto foi conduzido por pesquisadores do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics e publicado em o American Educational Research Journal em novembro de 2013[3].

A maioria dos pesquisadores e administradores escolares usa proxies para representar o conhecimento do assunto, como diplomas universitários ou certificações, em vez de avaliar o conhecimento diretamente. Porém, esses proxies podem não refletir de forma fiel o conhecimento real, de modo que o acaba sendo medido não é a correlação entre conhecimento do assunto e resultados dos alunos, e sim a correlação entre resultados e diplomas ou certificados.

O estudo Harvard-Smithsonian, ao invés disso, aplicou testes de conhecimento da matéria[4]; vale notar que eles usaram exatamente o mesmo teste para professores que também foi aplicado aos estudantes. Em outras palavras, os pesquisadores testaram o domínio dos professores de precisamente o mesmo conteúdo que eles pretendiam ajudar os estudantes a dominarem.

Os resultados mostram claramente que "a aprendizagem do aluno está relacionada ao conhecimento do professor"; aqueles que estudaram com um professor com mais conhecimento tiveram uma melhora significativamente maior do que seus colegas, especialmente quando as notas em temas específicos se correlacionaram com o domínio do professor daqueles mesmos temas. Além disso, o conhecimento dos professores sobre o conteúdo era um fator preditor muito mais forte dos resultados dos alunos do que outras métricas como anos de experiência de ensino ou graus universitários. Esses achados são coerentes com estudos internacionais anteriores, incluindo um em Belize (Mullens et al., 1996) e outro no Brasil (Harbison and Hanushek, 1992) que demonstraram correlações fortes entre a proficiência de professores em matemática e os ganhos dos respectivos alunos na matéria, ambos mensurados por testes similares.

 

Então, o conhecimento dos professores sobre o conteúdo é relevante para os resultados dos alunos, de modo geral. Mas e no caso específico do ensino de idiomas?

Embora o estudo referenciado acima tenha ocorrido no contexto dos anos finais do ensino fundamental, a conclusão nada surpreendente de que o conhecimento do professor sobre o conteúdo tem um impacto significativo nos resultados dos alunos provavelmente será ainda mais forte no ensino de idiomas, por dois motivos.

Em primeiro lugar, na abordagem comunicativa moderna para a aquisição linguística, o conhecimento linguístico implícito ou proficiência do professor corresponde exatamente àquilo que os estudantes desejam obter. Em outras palavras, a especialidade do professor - qual seja o uso comunicativo do idioma, e não o conhecimento acadêmico sobre o idioma - é precisamente o que o estudante precisa adquirir.

Em segundo lugar, a interação professor-aluno não é apenas o veículo para a transmissão do conteúdo; ela é o conteúdo em si. Com relação ao componente de fala do domínio do idioma - a principal razão para fazer aulas - a conversa entre professor e aluno fornece o substrato para a aprendizagem. Portanto, a capacidade do professor de manipular a linguagem de forma natural e habilidosa - ou seja, gerar o substrato adequado - é provavelmente mais importante para os resultados dos alunos do que em quase qualquer outra área de conhecimento.

 

Então, você está afirmando que falantes nativos são melhores professores de idiomas?

Não necessariamente: os professores não nativos podem ser excelentes e pode haver razões válidas para preferi-los em alguns casos. Porém, se outros fatores forem iguais, sim, eu sempre preferiria e recomendaria professores nativos habilidosos devido ao domínio comunicativo que possuem, que é altamente relevante para os resultados dos alunos que desejam se comunicar bem.

 

Posso experimentar uma aula com um professor nativo hoje mesmo?

Com certeza! Coloque à prova os professores nativos do Natural, agendado sua aula demonstrativa hoje, seja em inglês, espanhol, português ou francês.

[1] Vale mencionar que a classificação de um falante como “nativo” não é algo escrito em pedra. Os professores, assim como os falantes de uma língua em geral, possuem diferentes níveis de domínio. É possível (embora muito raro) alguém se tornar um falante nativo de um segundo idioma, como também é possível uma pessoa perder fluência e sofrer interferência linguística significativa em seu idioma materno. Nos parágrafos seguintes, procuro fornecer uma definição útil do que significa ser um falante nativo e explicar por que isso é importante.

[2] Pode haver outras razões legítimas para escolher um professor não nativo, mesmo quando se tem acesso a professores nativos qualificados. Elas se relacionam com o fato de que o professor não nativo passou pelo processo consciente de aprender o seu idioma alvo eles mesmos, frequentemente quando já adultos: portanto, eles podem ter especial empatia com os seus desafios e serem guias excelentes para o seu processo de aprendizagem. Portanto, a escolha tem algo a ver com preferências pessoais. Colocando tudo na balança, eu considero que aprender com alguém com um domínio mais profundo e total autenticidade cultural e linguística na língua supera em muito qualquer vantagem de um professor não nativo. Em última análise, o essencial é contar com um professor com domínio comunicativo no idioma (mesmo que não seja totalmente nativo), além das outras qualidades que constituem um excelente professor.

[3] Sadler, Philip M., et al. “The Influence of Teachers' Knowledge on Student Learning in Middle School Physical Science Classrooms.” American Educational Research Journal, vol. 50, no. 5, 2013, pp. 1020–1049. JSTOR, www.jstor.org/stable/23526122. Accessed 7 Aug. 2021.

[4] O estudo também examinou de perto o conhecimento do professor de conceitos equivocados comuns dos alunos, que também se correlacionaram positivamente com resultados dos alunos. Embora não esteja dentro do escopo deste post, esse achado sugere, analogamente, que professores de línguas estrangeiras que, por meio da experiência e do treinamento, se tornem mais conscientes dos erros frequentes dos alunos, podem estar mais aptos a lhes ajudarem a adquirir eficientemente o idioma alvo.


See other blog posts