3 motivos pelos quais a escuta é a habilidade mais importante no início | The Natural Language Institute

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3 motivos pelos quais a escuta é a habilidade mais importante no início

… e porque ela é também a mais fácil

By Victor - 15/mar/2021 #Línguas e Educação

Você deve trabalhar as quatro habilidades linguísticas – leitura, escrita, escuta e fala – de forma sinérgica, mas nunca deixe de priorizar a escuta, especialmente nas fases iniciais da aquisição linguística. Vejamos o porquê:

 

1) O cérebro humano evoluiu para adquirir a compreensão auditiva primeiro

O seu cérebro está programado para aprender os idiomas.

A linguagem complexa se desenvolveu em paralelo com a evolução da espécie homo sapiens, começando algumas centenas de milhares de anos atrás.[1]

Embora existam diversas teorias a respeito da cronologia exata e das relações de causalidade, é evidente que houve uma coevolução do cérebro humano e da linguagem.[2]  

Em contrapartida, a primeira linguagem escrita se desenvolveu há apenas cinco mil anos.[3]

Não é coincidência que as crianças consigam compreender a língua falada muito mais naturalmente – e anos antes – do que aprendem a ler, já que nossos ancestrais humanos se comunicaram oralmente por milhares de anos antes de começar a se comunicar também por escrito.

É incontestável que a primeira habilidade linguística que as pessoas desenvolvem na sua língua materna é a escuta, mas pode-se questionar se a mesma sequência se aplica à aprendizagem de um segundo idioma.

Porém, nós sabemos que os seres humanos da antiguidade migravam, e, sem dúvida, tribos que falavam idiomas diferentes entravam em contato uns com os outros. Parece lógico, portanto, que a capacidade de adquirir um segundo idioma sempre representou uma vantagem evolutiva,[4] e que a primeira habilidade que os adultos pré-históricos adquiriam num novo idioma era justamente a compreensão auditiva.

 

2) A compreensão auditiva permite iniciar as interações sociais

Pesquisas recentes em neurociência sugerem que a interação social é necessária para a aquisição linguística.[5]

Isso condiz com uma observação empírica muito comum, de que intercambistas que frequentam bares, namoram e saem com amigos nativos aprendem muito mais rapidamente do que os reclusos e aqueles que se concentram exclusivamente nos estudos.

A conclusão é que você precisa interagir socialmente no seu idioma alvo para adquiri-lo com eficácia.

Você consegue se engajar em conversas entre nativos mesmo quando sua capacidade de falar ainda é mínima, mas se você não consegue compreender o que eles estão dizendo, inevitavelmente você se desliga da conversa e se sente isolado. É nesse sentido que desenvolver a escuta permite a interação social, fator chave para e aquisição linguística efetiva.

 

3) Você precisa adquirir a “pronúncia mental” correta desde cedo

Ler e escutar são as duas habilidades passivas — ou receptivas — por meio das quais você poderá facilmente absorver a grande quantidade e variedade de input necessário para que o seu cérebro possa adquirir naturalmente a amplitude lexical e gramatical que sustentam o domínio linguístico.

No entanto, se você se concentrar exclusivamente na leitura inicialmente, você enfrentará um problema sério que será difícil, ou mesmo impossível, de corrigir completamente depois. Pelos motivos evolutivos e neurológicos que mencionei acima, temos a tendência de verbalizar mentalmente aquilo que estamos lendo. Grande parte da nossa cognição de alto nível é expressa por meio da fala interior. Desse modo, você “pronuncia” as palavras na sua mente[6] – isto é, você tem uma representação fonética mental das palavras. Os seus hábitos de pronúncia mental, sejam eles corretos ou não, impactarão a sua capacidade de escuta e fala.

Por essa razão, você economizará muito tempo e favorecerá a aquisição gradual de uma ótima pronúncia no seu idioma alvo ao praticar a escuta antes ou em paralelo à leitura. Ao fazer isso, quando você estiver lendo, seu cérebro vai reproduzir mentalmente a língua com uma pronúncia correta, reforçando boas representações e hábitos fonéticos.

Isso não quer dizer que você precisa sempre ouvir áudios sobre um tema antes de ler a respeito dele.

Basta incluir uma quantidade adequada de escuta da sua dieta linguística; com isso, você ouvirá todos os fonemas e palavras mais importantes antes que a pronúncia incorreta se torne um hábito mental arraigado.

Apenas não tente aprender a língua escrita exclusivamente, sem praticar a escuta. Se fizer isso, você pronunciará mentalmente as palavras de acordo com a fonética, normas ortográficas e entonação do seu idioma nativo, e isso se tornará um tremendo obstáculo à sua habilidade futura de falar bem no seu idioma alvo.

 

A escuta é a habilidade mais fácil de praticar

Todas as quatro habilidades linguísticas são extremamente importantes e apresentam seus próprios desafios.

Quando afirmo que a escuta é a mais fácil, não quero dizer que exige menos tempo ou dedicação do que a leitura, escrita ou fala. O que quero dizer é que, por motivos práticos, a escuta é a habilidade mais fácil de treinar frequente e extensivamente.

A escrita exige bastante esforço e motivação. De forma similar, nem sempre estamos com vontade de falar – isso é mais complexo para as pessoas introvertidas – e, de qualquer forma, você nem sempre tem alguém com quem conversar em seu idioma alvo. A leitura é mais fácil para algumas pessoas, mas outras se cansam rapidamente da prática.

Já no caso da escuta, a maioria das pessoas consegue ouvir diferentes conteúdos o dia inteiro sem maior esforço, especialmente se estiverem se entretendo com filmes, séries, ou vídeos no YouTube.

Ou seja, treinar a compreensão auditiva no seu idioma alvo não exige condições ou esforços especiais.

Você não precisa de outras pessoas, e você não precisa se sentir especialmente motivado. Quem não gosta de relaxar ouvindo música, curtir um bom filme, ou maratonar séries na Netflix?

Há uma quantidade sem fim de conteúdo para ouvir nos idiomas mais estudados. Você nunca ficará sem conteúdo engajador na Netflix, YouTube ou Radio Garden.

Siga o mesmo princípio que eu delineei no primeiro post sobre a leitura, e ouça sobre aquilo que lhe interessa, apaixona ou motiva.

Como exemplo, eu me deparei recentemente com este vídeo incrível no YouTube em francês – o idioma no qual estou me focando atualmente – sobre um tema que me interessa muito (experiências de quase-morte). Após assisti-lo, descobri que há vários outros vídeos similares dos mesmos produtores, de modo que agora estou animado para passar dezenas de horas treinando minha compreensão auditiva assistindo belos documentários.

 

Conclusão

O seu cérebro evoluiu para adquirir a capacidade de escuta primeiro, e isso lhe permitirá interagir socialmente no idioma e começar a ler com a pronúncia mental correta.

Felizmente, ouvir é mais fácil do que praticar qualquer outra habilidade, já que há conteúdo sem fim disponível, e não se exige condições ou esforços especiais para gastar horas sem fim ouvindo os idiomas.

Portanto, comece agora a ouvir cada vez mais no seu idioma alvo, como ingrediente chave para alcançar o domínio linguístico para a vida inteira.

E já que você parece gostar do tema de aquisição de idiomas, dê uma olhada nos vídeos que acompanham cada uma dessas publicações.

Se você quiser melhorar o inglês ou português, ouvir meus vídeos nesses idiomas será um bom treino para a sua compreensão auditiva, pois sou falante nativo dessas línguas. E se você for nativo ou tiver nível avançado em espanhol ou francês, gostaria da sua opinião sobre o meu domínio desses dois idiomas. Será ótimo receber o seu feedback.

Fique ligado nos próximos posts, nos quais vou comentar as melhores fontes para treinar a escuta e como fazer isso em cada nível de proficiência, além de responder algumas perguntas frequentes sobre o domínio dos idiomas pela escuta.

 


[1] Veja: Scerri, Eleanor M. L.; Thomas, Mark G.; Manica, Andrea; Gunz, Philipp; Stock, Jay T.; Stringer, Chris; Grove, Matt; Groucutt, Huw S.; Timmermann, Axel; Rightmire, G. Philip; d’Errico, Francesco (1 August 2018). "Did Our Species Evolve in Subdivided Populations across Africa, and Why Does It Matter?". Trends in Ecology & Evolution. 33 (8): 582–594. Disponível em: https://www.cell.com/trends/ecology-evolution/fulltext/S0169-5347(18)30117-4

[2] “A linguagem se adaptou ao cérebro humano (evolução cultural), enquanto que o cérebro humano se adaptou à linguagem que melhor lhe serviu (evolução biológica). Este processo coevolucionário resultou na evolução da linguagem e do cérebro para se adaptarem um ao outro.” Schoenemann, P. Thomas. “Evolution of Brain and Language”. Indiana University, 2009. Disponível em: https://brainevo.sitehost.iu.edu/publications/evol-brain+lang_lang-learning.pdf.

[3] Veja esse artigo sobre língua Suméria na Encyclopedia Britannica: https://www.britannica.com/topic/Sumerian-language.

[4] Um cenário fascinante é apresentado na série ficcional Os Filhos da Terra, de Jean M. Auel, na qual Ayla, uma humana moderna órfã criada pelos Neandertais na Europa há 30.000 anos, interage como adulta com várias tribos de homo sapiens.

[5] Kuhl PK. Brain mechanisms in early language acquisition. Neuron. 2010;67(5):713-727. doi:10.1016/j.neuron.2010.08.038. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2947444/

[6] Para uma introdução interessante ao tópico da relação entre a linguagem e a capacidade de pensar, consulte este artigo: https://mcgovern.mit.edu/2019/05/02/ask-the-brain-can-we-think-without-language/.

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